sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O carteiro já não toca duas vezes...

 
Mudam-se os tempos, mudam-se as formas de comunicação e a disposição com que se recebe as novidades. Longe vão os tempos em que esperava pelo correio diário, trazido pela mão de um carteiro que acelerava uma motorizada de zumbido familiar a toda a aldeia, que vestia uma farda cinzenta, que usava um boné de pala de plástico e que guardava numa mala de couro usada a tiracolo, as boas e as más notícias que marcavam dias felizes e dias infelizes.
Todos os dias era a mesma rotina, e todos os dias alguém perguntava: Já veio o carteiro?
Todos os dias se esperava a vinda do carteiro com a ansiedade com que se espera o regresso de um familiar de terras mais ou menos longínquas, esperava-se o carteiro porque com ele vinham as notícias esperadas e as inesperadas. Esperava-se que trouxesse o jornal mensal com as conquistas e desventuras do concelho, esperava-se que trouxesse a carta dos tios emigrados no outro lado do mundo, esperava-se que trouxesse o cartão de boas festas da família afastada com votos de muitas prosperidades para cada ano que se avizinhava, esperava-se que trouxesse a nota de levantamento das roupas que ainda se compravam por catálogo para assim se alimentar a vaidade.
O carteiro trazia também as contas da luz e da água... mas também essas eram esperadas e controladas.
Inesperadamente, o carteiro trazia um telegrama que marcava o início da saudade de alguém que se perdeu no horizonte da eternidade...
O carteiro era uma personagem que encarnava o rosto dos dias alegres, dos dias de rotinas, dos dias de pesar... mas era sempre uma presença ansiada na minha vida de miúda e na vida da aldeia, pois também ele trazia, quase sempre, a vida dos nossos.
 
Hoje, ainda há carteiro mas já não o espero com a impaciência ou comoção de alma que sentia. Hoje nem sempre desejo a sua presença, já não me traz o cartão de boas festas ou a nota de encomenda da camisola que iria aguçar a soberba alheia em domingo de Páscoa.
Hoje, ainda há carteiro, mas já não me entrega a correspondência em mãos, deixa na caixa, já não reconheço o barulho da motorizada a aproximar-se... já não o conheço.

21 comentários:

  1. Sim, hoje em dia não há aquela emoção com a correspondência como havia dantes. Hoje trata-se de tudo por telefone ou email. Mas ainda gosto de receber cartas para mim. É quase uma festa receber correio. :)
    beijinho

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  2. O carteiro conhecia todos e todos o conheciam, era normalmente uma pessoa querida e muito respeitada. Hoje ninguém os vê, ninguém os conhece, e pelo que sei a estabilidade neste emprego também é reduzida. Mudam-se os tempos, e há muito que se vai perdendo.

    Beijos

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  3. e ja nem toca a campainha.. coloca logo a cruzinha a dizer que ninguem atendeu (quando é correu registado) connosco a olha lo pela janela..

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  4. Eu penso como a Briana, mts vezes nem devem tocar a campainha. A mim já aconteceu estar À espera de uma coisa e não chegar. A resposta: Não atendeu ou não estava em casa. Ou ainda saber que tinha encomenda, ir aos ctt e não ter recebido o comprovativo, apenas dias depois quando já não era preciso.

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  5. No meu trabalho o carteiro entrega o correio em mãos e como me conhece, às vezes até deixa cartas registadas que são para minha casa, nada de importante. Preferia receber postais :)

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  6. Concordo contigo, ele só toca à campainha quando são cartas registadas.:)

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  7. Na zona onde moro ainda conheço o som da mota do carteiro,já as caras deles é mais dificil porque nem sempre é o mesmo.

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  8. Felizmente, a senhora carteira do meu trabalho é uma simpatia!

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  9. A minha avó ainda faz questão de manter esse tipo de relação com o carteiro :) Quando ele vem dá-lhe sempre dois dedos de conversa.

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  10. Eu ainda espero ansiosamente pelo carteiro principalmente quando faço compras online. De resto não traz boas notícias, só contas para pagar!
    E nem conheço o carteiro que cá vem. É sempre um diferente que cá vem, nem dá para lhes fixar a cara...

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  11. Pois eu detesto o carteiro cá da zona por dois motivos: nunca acerta na minha caixa de correio apesar de nela constar a identificação dos moradores(acho que a do vizinho fica mais à mão, deve ser para não sair da sua motorizada) e, porque desde que me emancipei, ele só me traz más notícias e contas para pagar. Longe vão os tempos em que, do banco do café dos meus pais, eu aguardava ansiosamente o conhecido carteiro com as cartas enviadas pelos amigos que conheci em colónias de férias e intercâmbios. Gostava tanto de receber correspondência que me inscrevia em todos os clubes que podia...de facto, agora relembro de como me sentia importante ao visualizar uma carta endereçada com o meu nome! Como me sabe bem recordar estes tempos! Obrigada (profª) Marta por, desta forma e mais uma vez, me remeter para lembranças tão simples mas com um gostinho tão agradável...

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  12. Eu mantenho o habito do "há correio?" ainda ouço a moto, raramente mas ouço, a cara não é a mesma pois o outro sr simpático mudaram-no de zona, apareceram deles tão estúpidos que até dá dó, mas ultimamente o sr até tem sido simpático e parece que veio para ficar!

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  13. Os tempos vão mudando e vão levando com eles estes pequenos pormenores... é pena. Mas a vida é assim ;)

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  14. Aqui tb já n vejo o carteiro... a n ser k n va trabalhar e mesmo assim ele passa e anda...

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  15. R: Pois acredito que sim... Mas ainda não chegou a minha vez...

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  16. Adoro quando trazem alguma encomenda e para não terem de perder tempo a parar para entregar, nem tocam à campainha. Escrevem logo o postalzinho para irmos buscar no dia a seguir!

    Gostei daqui, vou seguir. Segue de volta!

    Beijinho.

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  17. Bonita reflexão. É incrível e triste como se perdeu o encanto de passar para o papel os nossos sentimentos... Tenho pena de não ser da geração das cartas e postais mas ano após ano, nas datas mais especiais, vou tentando que o acto de enviar cartas não caía no esquecimento.

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